São Paulo

Author: Heitor de Oliveira /

Olha como tudo estava indo bem: os dias amanheciam felizes, os pássaros cantavam na janela, o sol nascia em um brilho intenso cheio de calor, um calor que penetrava os olhos e os fazia lacrimejar. Quase todas as tardes os afazeres eram simples, algumas lições, uns livros para ler e metas a cumprir que eram invariavelmente cumpridas a tempo todos os dias. Minha amada ? Vivia sorrindo e eu retribuindo, conversávamos todos os dias pelo telefone e vez em quando, pessoalmente. Durante a noite o jantar era simples e era muito gostoso dormir cedo. Claro que vira e mexe eu me entretia em leituras complementares e acabava me perdendo no tempo, mas nada que me fizesse acordar tarde no dia seguinte. Acontece que uma vez o dia amanheceu escuro, o céu cheio de cinzas e os carros passavam inquietos atrapalhando o sono de todos. Saí de casa aos afazeres e descobri que não havia ali amigos; no almoço, acabei comendo sozinho; na volta para casa o meu pai não foi me buscar, tive de me virar; no jantar apenas um pão com queijo e na hora de deitar a sensação de incompleto. Foi assim quando deixei minha casa, foi assim quando minha vida mudou. É incrível como aguentei e aguento até hoje essa prisão. Não tenho amigos onde moro, não consigo terminar meus afazeres e ainda por cima me vem na cabeça as lembranças de um tempo que passou.

O jovem de hoje carece de amor

Author: Heitor de Oliveira /

Não é simplesmente dizer eu te amo, não é sair todos os dias juntos, ligar todos os dias antes de dormir. Isso se faz. Falta amor, ser amado, sentir na pele a emoção, o sangue aquecer e o coração bater veloz. Não se trata de usar as redes sociais e dizer publicamente, se trata de sair na chuva, cantando e dançando e gritar abertamente. É fazer com que os outros sorriem, porque o amor tem esse poder, não interessa se não é a sua pessoa amada, ele contagia todos que estão à volta, tem a capacidade de transmitir alegria ao seu redor. Não que o jovem de hoje  não ame, digo que falta amor, falta a entrega, ter apenas dezoito anos e pedi-la em casamento, ter apenas dezesseis e aceitá-lo. A mágica envolve aqueles que amam, os deixa inexplicavelmente felizes e dispostos. O amor não tira a fome, ele traz a vontade de dividir a comida com alguém, apenas para saborear as delícias do mundo ao lado de quem se ama. Ele não tira o sono, consegue trazer companhia para dormir. Também não traz dor, a dor é o oposto do amor. Escrever belas frases e enviá-las pelo celular não é suficiente, quem ama faz loucuras, se entrega de corpo e alma e vai de encontro ao respectivo e declara-lhe poemas, frases e canções, independentemente da inconveniência do mundo dinâmico que se vive. Aos poucos, as buzinas dos carros se tornarão perfumes, os gritos, paisagens floridas, as agressões, música. Essa é a magia que possuem aqueles que amam, esta é a que falta nos jovens de hoje.

Como eu te amaria em um domingo

Author: Heitor de Oliveira /

Meu desejo é acordar numa gélida manhã de domingo, sorrir, apenas admirando ela dormir em uma respiração profunda. Os pássaros já cantariam e nós poderíamos ouvi-los porque no domingo ali não passam mais carros. Aos poucos ela notaria que acordei e num breve susto de fim de sono ela olharia pra mim com cara de preguiça, viraria pro lado puxando minha mão para aconchegá-la, nada seria mais perfeito.  Quando já fossem dez horas da manhã nós acordaríamos ao mesmo tempo sorrindo um para o outro e nas mesmas vestes de dormir iríamos preparar nosso café da manhã na cozinha. Após uma breve caminhada no quarteirão deserto, voltaríamos para casa e começaríamos o almoço. Ela já apressada e inquieta com os preparos da comida e eu me esforçando ao máximo para ajudá-la e acalmá-la. Vez em quando a puxaria e a beijaria, um beijo simples sorrindo, daríamos gargalhadas de coisas a toa e o almoço seria agradável. Nós nos adoraríamos dia e noite, todos os dias.

Esteira

Author: Heitor de Oliveira /

Não sei se sou louco ou gênio, não sei se sou os dois ou nenhum. As vezes paro para pensar e me vem grandes idéias na cabeça, idéias que poderiam mudar a vida de muitos ao meu redor e que não há absolutamente nada para combatê-las. É estranho este sentimento, parece que sou dono do mundo, capaz de mudar o curso das coisas e mesmo assim me pego parado pensando, apenas pensando. Se eu fosse realmente capaz, faria tudo aquilo, exerceria minha profissão destino e me tornaria eterno, ou então, fracassaria como muitos já fracassaram. Quando cito 'muitos' nem sei de quem estou falando, mas eu sei que muitos fracassaram. Obviamente este pensamento não deveria me dominar, afinal os êxitos estão ali perdidos entre os muitos que não se deixaram levar por estas idéias. Gostaria que tudo fosse mais fácil, gostaria de pensar, agir e ter certeza de que tudo daria certo. Sou um sonhador, sim eu sou, mas deixo de sonhar toda vez que me iludo nessa vida rotineira. Trabalhos aqui, afazeres ali, nunca caminhando para frente.  É como se eu estivesse em uma esteira. Talvez,  se a minha vida não fosse uma esteira, as coisas dariam mais certo.

A senhora da vida

Author: Heitor de Oliveira /

Eu poderia perguntar ao mundo, quantas vezes eu quisesse, o que de tão belo há que meus olhos não conseguem enxergar ? A resposta obviamente não viria em palavras, nem sonoras, nem escritas. Eu esperaria, em todas as vezes que eu perguntasse, a resposta em experiências futuras, em vivências extraordinárias, paisagens belas e grandes amizades. 

Em uma noite de verão, andando por uma praça comum, daquelas cercadas com arbustos baixos e uma estreita trilha em areia clara traçando os caminhos por onde passar, avistei uma senhora sentada. No chão, ela cochichava alto com o vento que balançava seus cabelos cheios de areia. Me aproximei, querendo entender o que a moça falava. Desde o momento em que a reparei, não quis parecer intruso, logo me aproximei de maneira discreta e à medida que a distância diminuía, comecei a entender algumas palavras.
A noite estava clara, uma bela lua crescente quase em seu auge iluminava não só a praça, mas as nuvens brancas que passavam velozmente pelo céu. Eu, em plena inquietude com a curiosidade, quis me aproximar ainda mais até perceber a menina cantar. Com o vento uivando, não pude perceber de longe a melodia em uma voz sublime que a compunha. Aquela criança tinha como seu instrumento o som do vento, como platéia o verde da praça e um garoto intruso, e como palco um chão de areia. Ela cantava a canção da vida, versos belos sobre o céu e o mar, o sol e a lua, os sonhos e as estrelas. Me sentei ao seu lado e entrei em seu ritmo, eu parecia um recém nascido ao lado de uma menina que tinha o mundo para me mostrar, e eu, estasiado com a beleza que este tinha a me oferecer.
Eu poderia perguntar ao mundo, quantas vezes eu quisesse, o que de tão belo há que meus olhos não conseguem enxergar, mas seria tolice perguntar, bastava-me sonhar.

Dilema de um prisioneiro

Author: Heitor de Oliveira /

Sou superficial, consumista, dinheirista, frio, egoísta, mau-caráter, sem opinião própria, sem voz, não sinto dor, não vejo, não escuto, não sou ouvido e nunca falam de mim. É assim que sou, para os outros, que me vêem por trás dos letreiros e das gravuras. Sou também o oposto de tudo e sei mesclar estas qualidades quando quero. Engano a quem eu quiser e na hora que eu quiser, isto é, sou múltiplo, em outras palavras sou um camaleão na sociedade. Na minha casa sou sozinho, leio, fumo, assisto jornal, planejo meus objetivos, toco e canto, mas não me engano, sei que preciso exercitar a minha falsidade e a minha frieza, sei que preciso deixar o amor de lado e concentrar-me no sucesso profissional. A minha face, parte mais importante, é impecável ao demonstrar o quão consistente e seguro eu sou, nunca tive melhores amigos e não pretendo ter, as pessoas não se aproximam muito de mim, elas tem medo. A noite me deito vejo o céu estrelado desenhado no teto do meu quarto, com medidas perfeitas muito próximas da realidade. Fiz isso por que sei que se eu passar muito tempo a fora com a natureza, me tornarei num completo animal que segue seus instintos, cairei profundamente nos braços da emoção e enterrarei de vez, como um tesouro de um navio naufragado, a minha carreira. Vivo com medo, as vezes sinto vontade de chorar, mas a minha falsidade é tanta que reprime este choro em lágrimas secas de orgulho e caio no sono. Eu não sonho, apenas acordo no dia seguinte e embarco no meu carro de luxo rumo ao trabalho.

Legalização da Maconha

Author: Heitor de Oliveira /

Diga não à legalização, pois se disseres sim, verás todos os teus amigos indo embora, até que fiques só.

Meu pensamento parou

Author: Heitor de Oliveira /

Por um ano eu corri atrás de ti
Me entreguei me joguei deixei de sorrir
Te ganhei te perdi e agora estou
Sozinho nesse barco livre de amor

Nesse tempo eu parei pra pensar
No dia que eu te conheci ( ah ah )
Nos teus olhos eu me perdi
E nesse amor eu sei que me conheci

Mas o tempo passou e você me deixou
Minha vida mudou meu pensamento parou
Depois de tanto tempo eu parei pra escrever
Alguma coisa assim sobre você


As lembranças vão fazer você voltar
Colocar minha vida no lugar
Não me deixe só em frente ao mar
Pois a Lua vai me fazer relembrar


Vida a toa

Author: Heitor de Oliveira /

Se é pra falar de amor
Sem medo nem pudor
Sei que não é tão fácil
Nem tampouco agradável

Te mando novidades de uma vida boa
Sem você, ficou tão simples, tão feliz
Mas mesmo assim não sai da vida a toa
Suas lembranças, do seu cheiro e do que diz

Na vida a gente perde a ganha
Mas as vezes nos lembramos da vida boa
As perdas vão ficando e o que resta é lembrança
Dos momentos mais felizes da vida a toa


Susto das pálpebras

Author: Heitor de Oliveira /

Se eu pudesse
Tiraria os olhos de ti
Se eu pudesse
Deixava de te perseguir

Mas não posso
Pois tu tens os olhos do mar
E aos meus olhos
O único brilho que brilha
São dos Teus.


Escrevi este pequeno poema em alguns segundos, o significado é simples aos que leem, para outros nem tanto.